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Preocupados, pais não querem que filhos voltem às escolas em julho no RS

Os arquitetos Paula Correa e Rodrigo Poltosi e as filhas, Lara, 2 anos, e Luiza, 11: receio de voltar às aulas presenciais Jefferson Botega / Agencia RBS
Os arquitetos Paula Correa e Rodrigo Poltosi e as filhas, Lara, 2 anos, e Luiza, 11: receio de voltar às aulas presenciais Jefferson Botega / Agencia RBS

Para muitas famílias, chegada do inverno, a possibilidade de o Estado ainda não ter atingido o pico da doença e a dificuldade das crianças em cumprir regras sanitárias elevam os receios

Receosos com a previsão de retorno das aulas presenciais no Rio Grande do Sul a partir de julho, muitos pais têm afirmado que não deixarão seus filhos voltarem às escolas. Nos planos do governo, as turmas de Educação Infantil, dos primeiros anos do Ensino Fundamental e o 3° ano do Ensino Médio devem ser as primeiras a retomar as atividades em sala de aula, seguindo uma série de protocolos.

Entre os principais motivos para essa decisão dos pais estão a intensificação do inverno no Estado, a incerteza sobre o avanço do coronavírus – que pode sequer ter atingido o pico na população gaúcha – e a noção de que os estudantes, especialmente os pequenos, dificilmente seguirão as medidas sanitárias exigidas.Preocupados com a saúde da família, Rodrigo Poltosi e a esposa, Paula Correa, entendem que o melhor para as duas filhas, no momento, é continuar o aprendizado em casa. Pais de Lara, dois anos, e Luiza, 11, o casal de arquitetos prefere continuar com elas por perto em um ambiente controlado, apesar das dificuldades de conciliar trabalho, estudos e afazeres domésticos.

— A gente entende que seria muito precipitado voltar para a escola neste momento. Elas são crianças ainda, e mesmo com protocolos de limpeza, de proteção, não têm maturidade para seguir orientações de higiene. Ainda mais em uma escola muito grande, com alto fluxo de alunos e pais — reflete Rodrigo, que, assim como a filha mais velha, tem asma, o que aumenta sua preocupação.No início da pandemia, o casal tirou a filha mais nova da escolinha por entender que as atividades remotas promoviam pouco aproveitamento, e tem buscado o aprendizado dela em casa. Já Luiza continua matriculada em uma escola particular em Porto Alegre, tendo aulas a distância todas as tardes.

— Sabemos que não é o ideal: mesmo com algumas vantagens, a perda da sociabilidade (com aulas remotas) é preocupante. E o contato direto professor-aluno é importante também, fora que é bem difícil estabelecer uma rotina de estudos em casa — explica Rodrigo, que também é professor universitário.

No Facebook, um grupo chamado Direito ao Ensino não Presencial Durante a Pandemia reúne 2,2 mil pais e mães no Rio Grande do Sul contrários ao retorno das aulas presenciais. Os participantes estão promovendo três diferentes abaixo-assinados, um deles com mais de 55 mil assinaturas, pedindo que a retomada da ida às escolas não aconteça agora.

"Nós pais e mães não aceitamos colocar a vida de nossos pequenos em risco em prol decisões políticas! Isso é inegociável", diz um trecho de um dos abaixo-assinados.

Doenças respiratórias

A mesma situação vivem a bancária Tatiana Ferreira, o marido Tiago Pedroso e os filhos Artur, 10 anos, Luiza, cinco, e Vitória, dois. Moradores da Capital, eles também fazem parte do grupo de pais que não querem os filhos voltando às aulas presenciais nas próximas semanas. Além da dificuldade de controlar as crianças, ainda mais depois de meses afastadas dos colegas e professores, eles revelam dúvidas sobre como será o dia a dia nas escolas com as medidas sanitárias que deverão ser implementadas.

Nem chegamos no inverno ainda, as doenças respiratórias só vão se agravar daqui pra frente.

— Como vai ser esse retorno? Nem chegamos no inverno ainda, as doenças respiratórias só vão se agravar daqui pra frente. Minhas crianças têm problemas respiratórios, estão sempre tendo problemas, e isso mesmo antes desse quadro de covid-19. Como vai ser agora, vão deixar janelas e portas abertas no frio? Ou tudo fechado, com o vírus circulando? São muitas dúvidas, então não queremos o retorno agora. Paciência se for só em setembro, outubro — afirma Tatiana.

Também matriculadas em escolas particulares, as crianças estão tendo aulas online, e a bancária afirma reconhecer o esforço das instituições em promover educação para seus filhos, mas teme que um afrouxamento das medidas sanitárias agora terá reflexos negativos mais para frente.

O temor é compartilhado pela faxineira Caroline dos Santos, mãe de Pyetro, que estuda em uma escola pública no bairro Bom Jesus, zona leste de Porto Alegre. Receosa de um retorno às aulas presenciais no próximo mês, ela afirma que vai ao colégio nos próximos dias em busca de mais atividades que o filho possa fazer em casa.

— Não quero que ele volte para a escola agora. Ele é pequeno, não sabe como se cuidar, usar máscara, passar álcool gel nas mãos, lavá-las com frequência. As crianças não estão prontas para voltar. Por isso quero ver se tem como continuar buscando atividades para ele fazer em casa — diz Caroline.

Curva de contaminação crescente

A dentista Maria Lúcia Bertoglio compartilha dos mesmos receios. Mãe de Davi, 11 anos, e de Lucca, 21, ela e o marido, Carlos Augusto Almeida, consideram precipitado um retorno em julho. A experiência na área da saúde faz Maria Lúcia questionar se esse é um momento adequado para a retomada das atividades presenciais, considerando que a curva de contaminação ainda não se tornou decrescente no Rio Grande do Sul, o que significaria uma diminuição constante no número de infectados por coronavírus.

— Tudo isso me preocupa. E nossa cultura é muito carinhosa, as crianças brincam se abraçando, brincam se tocando, um emprestando material para o outro, e é isso que eu acho que vai acontecer, independentemente de protocolos. E outra: não tem como voltar com 20, 30 crianças em uma mesma sala, mesmo de máscara. Elas dificilmente vão manter a distância necessária uma da outra, não tem como. Acho perigoso demais — pondera a dentista.

A reportagem buscou respostas sobre as preocupações dos pais junto à Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e o Sindicato do Ensino Privado do RS (Sinepe/RS). O Sinepe informou que esse assunto ainda está em discussão, e por enquanto, não há uma posição a respeito. Já da Seduc, não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Veja as cinco fases de retomada das aulas no plano do governo

Fase 1 – Início em 1º de junho – Volta às aulas remotas (ensino a distância) para a rede pública estadual

Fase 2 – Início em 15 de junho – Volta às aulas presenciais para atividades práticas essenciais para a conclusão do curso, pesquisa, estágio curricular obrigatório na graduação, pós-graduação e ensino técnico

Fase 3 – Início em 1º de julho – em aberto

Fase 4 – Início em 3 de agosto – em aberto

Fase 5 – Início em 1º setembro – em aberto

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Matéria publicacada em 01/06/2020
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